
A fama de boa cozinheira da Candinha é inegável. Mas nem tudo eram receitas, ela tinha outras formas de mostrar seu carinho. Nós duas tínhamos uma relação muito próxima, ela já morava com meus pais quando eu nasci e esteve presente durante toda a minha vida. Vivemos juntas na mesma casa por vinte e cinco anos. Desde pequena, nós tínhamos um passeio só nosso, que era no dia em que ela ia ao banco receber a pensão. Ainda em Santos, ela sempre me levava junto, de ônibus ou de táxi lotação. Quando resolvia levar o Fabrício, mentia dizendo que ia em outro lugar, para eu não ficar com ciúmes. Para mim, era quase um ritual, eu adorava. Ela colocava o dinheiro dentro da carteira de identidade, que era a mesma desde 1930, ia me mostrando os lugares da juventude dela e me contando histórias. Depois, a gente ia lanchar no Jamblam e andar de escada rolante na Americanas. Ela nunca andava, morria de medo, tinha a impressão de que ia cair. Tempos depois, já velhinha, eu é que a levava ao banco, furava a fila para ela não ter que esperar e quebrava o pau com a insensibilidade dos caixas.
Dividi o quarto com ela a vida toda. Era para a cama dela que eu pulava, à noite. Era no colo dela que eu fazia xixi dormindo e ela agüentava molhada para não me acordar. Foi ela quem me levou prá levar pontos no queixo, que voltou chorando do oculista quando descobriu que eu ia precisar usar óculos, quem me buscava na escola, quando eu era pequena. Depois que cresci, ela ficava me olhando da janela até eu entrar no colégio. Na saída, assim que eu apontava na rua, já via o vulto dela me esperando na mesma janela, para me ver atravessar a rua. Ela fazia comidinhas especiais prá mim: não botava banana no canto do bolo prá eu poder comer também, catava todo o agrião da minha sopa e jurava de pés juntos que não tinha colocado leite no mingau de maizena, ou nabo na sopa de legumes. Os meus bolinhos de cenoura eram os mais pretinhos e eu sempre ganhava mais pastéis do que os outros, porque ela salvava uns prá mim, escondido. Quando eu voltava da escola, na hora do almoço, ela já me recebia dizendo: adivinha o que eu fiz prá você hoje...Fizemos muitas viagens juntas, eu sempre ia com ela prá Campinas, nas férias. Numa dessas viagens, enterrei as unhas no braço dela, de medo do avião. Foi com ela que eu saí de Brasília, quando nos mudamos prá Niterói. Foi com ela que eu viajei para Santos, para me casar. Quando viajei de avião para São Paulo, para me despedir dela, pela primeira vez não tive medo. Tinha a certeza de que, se o avião caísse, ela estaria do outro lado me esperando.
Ainda hoje, quando acontece alguma coisa importante, por um momento, uma fagulha de pensamento, eu ainda tenho o reflexo de pegar o telefone para contar prá minha avó. Pena que logo passa e eu me lembro que agora as formas de contato com ela são outras.
Um beijo, vó.
Thais
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